IA brasileira lê o rosto de bebês e identifica dor em UTI neonatal com precisão inédita
Engenheiros do Centro Universitário FEI e pediatras da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) desenvolveram uma ferramenta de inteligência artificial capaz de identificar o nível de dor de recém-nascidos internados em UTIs neonatais. A tecnologia analisa simultaneamente imagens e linguagem para interpretar as expressões faciais dos bebês com maior precisão e menos subjetividade do que os métodos atuais.
A pesquisa, financiada pela FAPESP e publicada na revista científica Pediatric Research, demonstrou que o sistema supera técnicas tradicionais de deep learning na distinção entre estados de dor e conforto — e ainda tem uma vantagem prática: não precisa ser retreinado separadamente para cada caso.
O problema que a IA resolve
Avaliar dor em recém-nascidos é um dos maiores desafios da medicina neonatal. Como os bebês não conseguem se comunicar verbalmente, médicos e enfermeiros dependem de escalas de observação clínica — método funcional, mas sujeito a variações humanas.
“As interpretações podem variar conforme o estado emocional de quem o observa. Um médico, um enfermeiro ou uma mãe mais angustiada podem ter percepções diferentes”, explica a Dra. Ruth Guinsburg, professora de pediatria neonatal da Unifesp e coordenadora da UTI Neonatal do Hospital São Paulo.
Segundo ela, um bebê internado em UTI neonatal pode ser submetido a até 13 procedimentos dolorosos por dia — punções, inserção de cateteres, cirurgias e intubações. Todos necessários, mas todos potencialmente dolorosos.
Como a tecnologia funciona
O sistema utiliza modelos multimodais de linguagem e visão (vision-language models), o mesmo tipo de arquitetura de IA que serve de base para ferramentas como o ChatGPT e o Gemini. Ao combinar análise de imagens com interpretação de dados textuais, o algoritmo consegue detectar microexpressões faciais que indicam desconforto — padrões que podem passar despercebidos ao olho humano.
“Com os modelos multimodais, é possível usar bases pré-treinadas em enormes volumes de dados para resolver tarefas médicas específicas com muito mais rapidez”, afirma Carlos Eduardo Thomaz, professor do FEI e pesquisador do projeto.
O que muda na prática clínica
A expectativa dos pesquisadores é que, no futuro, a ferramenta funcione como um monitor de dor em tempo real, integrado aos equipamentos já presentes nas UTIs — ao lado dos monitores cardíacos e respiratórios.
O objetivo vai além da precisão: trata-se de ajudar médicos a encontrar o equilíbrio terapêutico correto. No cérebro ainda em desenvolvimento dos bebês, tanto a dor não tratada quanto o excesso de medicação podem ter efeitos neurotóxicos.
“O desafio é acertar o alvo: tratar quando há dor e suspender quando ela cessa”, resume Guinsburg.
Vale lembrar que até os anos 1990 a medicina acreditava que recém-nascidos não sentiam dor por imaturidade neurológica. Hoje a ciência aponta o contrário: justamente por serem imaturos, eles são ainda mais vulneráveis aos estímulos dolorosos.
A ferramenta segue em fase de aperfeiçoamento, mas os resultados já apontam para uma inovação com impacto direto no cuidado neonatal brasileiro.